O tempo passou timidamente por mim, de tal forma que não conseguia vê-lo perfeitamente, cobria-se em um manto opaco.De tudo que ocorria fora da minha corrente de pensamentos, apenas uma coisa estava em minha consciência: eu me fixava na vidraça acima da pia da cozinha. A cortininha antiga balançava com o ar que entrava por pequenas frestas. Assobiava. Um prisma, que eu pendurara aos sete anos, medianamente na moldura superior, se mexia hipnoticamente. Um pêndulo angustiante em seu movimento previsível e interminável.
Eu abraçava meus próprios joelhos, grudando-os em meu colo.
Apertei o tecido da barra do vestido fortemente. Despertei com a chuva batendo muito fracamente na janela. Cada gotinha um estrondo.
Através do vidro, na direção do mar, visualizei uma linha limpa abaixo de nuvens negras, por onde o brilho do sol já posto se revelava inocentemente. As ondas estavam inquietas. A luz na sala ficava azul e fraca, conforme o brilho minguava. A sala estava azul. Eu estava azul e fraca. Mal sentia o contato de minhas rótulas em meu queixo.
Pisquei uma vez. Pisquei outra vez. E uma terceira vez. Ouvi o motor, não era um delírio. Ouvi a porta do carro se abrindo num rangido absurdo, ouvi o portão se fechando. E num salto de compreensão e concupiscência, abri a porta e desci os degraus de madeira com grande velocidade.
Porém, titubeei o bastante para haver chance de a chuva se intensificar antes de eu sair correndo.
Eu via as lanternas traseiras fugindo. Tomava partida. O solo já estava lamacento, eu ainda estava sem sapatos, o verde se chacoalhava loucamente por toda a parte.
Só alguns segundos. Não deixaria que ele se fosse.
Com toda a rapidez que eu podia juntar, fui me movendo no ar fraco do cair da noite, na água. Persegui o carro, e ele poderia me ver. Poderia, e mesmo assim não pararia. Um vulto branco bem definido atrás dele, atrás do carro retardado pelos atritos do solo desigual. “Atole, por favor, atole!”. Apenas não queria dar-me a imerecida atenção. Como culpá-lo?
Minha roupa ficava pesada, meus pés escorregavam mais e mais, a lama se apertava entre os dedos enquanto eu corria, a cada passo eu afundava um pouco mais e já estava a uns sessenta metros de casa quando tombei.
Até minha alma já estava molhada.
Bati meu rosto e a lateral esquerda de meu corpo no barro, e encheram-se de cobertura cor-de-chocolate, o cheiro da terra era inebriante; um rasgo me fez gemer ao senti-lo no pé direito. A chuva se misturou com meu sangue e vi o conjunto banhar a responsável. Pontiaguda. Cruel.
Dobrei-me para cima, e tudo parecia estar em câmera lenta. Minhas pernas estavam em um estranho ângulo. O rasgo era visível.
E o sangue parecia doce quando o toquei.
A dor era irrelevante. As trevas escorriam ao meu redor, minha lívida pele e a roupa contrastavam com todo o ambiente. Então, havia uma mancha, uma faixa no peito do meu pé tombado, nascendo do primeiro metatarsiano, na face externa.
Recolhi a afiada pedra, brinquei com ela entre as mãos como se fosse uma amiga, não meu algoz.
Mais uma vez, ingrata, feriu-me. Larguei-a num ímpeto. A palma, agora, era também carne branca manchada, sangrenta. Hemorragia menos intensa, contudo mais torturante. Talvez por ter sido eu mesma a causadora direta.
Lacrimejei, rindo.
Levei até os lábios meu líquido, minha vida.
O gosto férreo me distraiu por um período indefinido, e provavelmente tudo aquilo foi décimos de segundo, apesar de parecerem dias de autoconhecimento louco, sedento e cândido. Uma eternidade breve, um tempo complexo como uma divindade, amoroso ao acariciar meu rosto. Que tempo é esse?
Chorei e ri de frio e suplício, de asco e medo, de entendimento e clareza, de dúvida e cansaço.
Minha mente estava mais organizada quando o motor estava próximo de novo, e o carro vermelho dava a ré. Que se danem as contradições. Elas existem e pronto.
Ele disse alguma coisa. Ralhou. Não sei. “É você, não é?”.
Braços cheios de calor me envolveram.
Ele retornara pela minha queda, meu rasgo, meu sangue, meu líquido. Minha vida.
