Todos já tinham fechado os olhos havia muito tempo. Claro. Já era hora de dormir. Dormir é sempre bom, todos concordam. Às vezes não queremos, mas é porque temos algo interessante a fazer, ou estamos com medo, e não porque seria uma péssima experiência. Curioso o quanto dormir dá prazer, mesmo que não fiquemos conscientes no processo. O prazer, na verdade, vem depois do sono. Tanto faz.
No entanto, não conseguia pregar os olhos. Fechava-os vez ou outra, a TV ligada cansando sua vista, chamando Morfeu para agarrá-la. Ele devia estar surdo, que palhaçada. “Querida, você está até com frio, nesse inferno. Sabe de que precisa. E você não está sentindo isso por nada, sabe que algo horrível esta acontecendo”.
Saiu do leito. Uma dor, que começava não sabia de onde, tirava seu ar. Seus pés sabiam o caminho, e a dor piorava por isso. Tinha as palavras prontas nos lábios. Mas se dissolveram completamente quando chegou ao destino. Será que Morfeu estaria ali? Será que ele ali a abraçaria, quando tombasse desmaiada de pânico na grama?
Não tinha muita certeza do porquê daquele martírio todo. Achava que já teria se acostumado com tudo aquilo. Sentou-se na cadeira livre que encontrou, fixou os olhos num só ponto, uma chama em sua traquéia. O calor escapava para todo o pescoço, subia até suas narinas, suas faces, até que chegou aos olhos. E aquele pranto também queimava. Estava sendo tola?
“Meu amor, por que está fazendo isso comigo? Você e todos eles? É tão bom estar sóbrio, sair do mundo comum é bom para quem não está feliz nele… eu vejo a morte nessa fumaça, nesse hálito. Esse cheiro é que me queima”.
Retirou-se. Não entendia muito sobre tais coisas. Só sabia que era ruim, e estava certa. “Eu amo sua mente, não a machuque”.
Parou pra se apoiar, pois sabia que podia perfeitamente cair. Repentinamente estava cega e surda, e tudo o que sentia eram braços em torno de si. Não sabia como, mas estava de volta ao leito. Ouvia a voz pedindo perdão, e a queimação continuava.
Foi falando o que lhe vinha à cabeça, aos sussurros, em desespero. Tinha vontade de pedir desculpas também, mas não sabia pelo que. Estava se lembrando de coisas tremendamente dolorosas, de que tinha até vergonha. Foi se esvaziando, pouco a pouco. A dor foi substituída por cada sílaba que saía dos lábios de seu Óengus, por cada ósculo que ele punha sobre ela, sobre sua pele, pela promessa que ele lhe fazia com tanta sinceridade.
“Fique em silêncio agora, Caer; esse é o momento que vale a pena”.
