sábado, 27 de novembro de 2010

Criancinha.

No fim do ano que vem vou receber uma carta de mim mesma. Não sei como estarão as coisas, nem me lembro do que escrevi na carta. Tenho chorado feito um bebezinho, e vão acabar me odiando por causa disso. É um período, caralho. Uma porra de período horrível, de dizer "tchau", de precisar de amplexos o tempo inteiro, de ter de decidir coisas. Não dá pra entender?

E os primos em segundo grau (primos dos nossos pais) podem ser chamados de "tios segundos", e os filhos deles podem ser chamados de "primos segundos", portanto a nomenclatura "tio-primo" não é incorreta, assim como "tio-avô" pode ser usado ao invés de "tio em segundo grau" (tio de um dos nossos pais).

domingo, 10 de outubro de 2010

Noite Com Aengus.

Todos já tinham fechado os olhos havia muito tempo. Claro. Já era hora de dormir. Dormir é sempre bom, todos concordam. Às vezes não queremos, mas é porque temos algo interessante a fazer, ou estamos com medo, e não porque seria uma péssima experiência. Curioso o quanto dormir dá prazer, mesmo que não fiquemos conscientes no processo. O prazer, na verdade, vem depois do sono. Tanto faz.

No entanto, não conseguia pregar os olhos. Fechava-os vez ou outra, a TV ligada cansando sua vista, chamando Morfeu para agarrá-la. Ele devia estar surdo, que palhaçada. “Querida, você está até com frio, nesse inferno. Sabe de que precisa. E você não está sentindo isso por nada, sabe que algo horrível esta acontecendo”.

Saiu do leito. Uma dor, que começava não sabia de onde, tirava seu ar. Seus pés sabiam o caminho, e a dor piorava por isso. Tinha as palavras prontas nos lábios. Mas se dissolveram completamente quando chegou ao destino. Será que Morfeu estaria ali? Será que ele ali a abraçaria, quando tombasse desmaiada de pânico na grama?

Não tinha muita certeza do porquê daquele martírio todo. Achava que já teria se acostumado com tudo aquilo. Sentou-se na cadeira livre que encontrou, fixou os olhos num só ponto, uma chama em sua traquéia. O calor escapava para todo o pescoço, subia até suas narinas, suas faces, até que chegou aos olhos. E aquele pranto também queimava. Estava sendo tola?

“Meu amor, por que está fazendo isso comigo? Você e todos eles? É tão bom estar sóbrio, sair do mundo comum é bom para quem não está feliz nele… eu vejo a morte nessa fumaça, nesse hálito. Esse cheiro é que me queima”.

Retirou-se. Não entendia muito sobre tais coisas. Só sabia que era ruim, e estava certa. “Eu amo sua mente, não a machuque”.

Parou pra se apoiar, pois sabia que podia perfeitamente cair. Repentinamente estava cega e surda, e tudo o que sentia eram braços em torno de si. Não sabia como, mas estava de volta ao leito. Ouvia a voz pedindo perdão, e a queimação continuava.

Foi falando o que lhe vinha à cabeça, aos sussurros, em desespero. Tinha vontade de pedir desculpas também, mas não sabia pelo que. Estava se lembrando de coisas tremendamente dolorosas, de que tinha até vergonha. Foi se esvaziando, pouco a pouco. A dor foi substituída por cada sílaba que saía dos lábios de seu Óengus, por cada ósculo que ele punha sobre ela, sobre sua pele, pela promessa que ele lhe fazia com tanta sinceridade.

“Fique em silêncio agora, Caer; esse é o momento que vale a pena”.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Fim de Tarde Com Hespérides.

O tempo passou timidamente por mim, de tal forma que não conseguia vê-lo perfeitamente, cobria-se em um manto opaco.
De tudo que ocorria fora da minha corrente de pensamentos, apenas uma coisa estava em minha consciência: eu me fixava na vidraça acima da pia da cozinha. A cortininha antiga balançava com o ar que entrava por pequenas frestas. Assobiava. Um prisma, que eu pendurara aos sete anos, medianamente na moldura superior, se mexia hipnoticamente. Um pêndulo angustiante em seu movimento previsível e interminável.
Eu abraçava meus próprios joelhos, grudando-os em meu colo.
Apertei o tecido da barra do vestido fortemente. Despertei com a chuva batendo muito fracamente na janela. Cada gotinha um estrondo.
Através do vidro, na direção do mar, visualizei uma linha limpa abaixo de nuvens negras, por onde o brilho do sol já posto se revelava inocentemente. As ondas estavam inquietas. A luz na sala ficava azul e fraca, conforme o brilho minguava. A sala estava azul. Eu estava azul e fraca. Mal sentia o contato de minhas rótulas em meu queixo.
Pisquei uma vez. Pisquei outra vez. E uma terceira vez. Ouvi o motor, não era um delírio. Ouvi a porta do carro se abrindo num rangido absurdo, ouvi o portão se fechando. E num salto de compreensão e concupiscência, abri a porta e desci os degraus de madeira com grande velocidade.
Porém, titubeei o bastante para haver chance de a chuva se intensificar antes de eu sair correndo.
Eu via as lanternas traseiras fugindo. Tomava partida. O solo já estava lamacento, eu ainda estava sem sapatos, o verde se chacoalhava loucamente por toda a parte.
Só alguns segundos. Não deixaria que ele se fosse.
Com toda a rapidez que eu podia juntar, fui me movendo no ar fraco do cair da noite, na água. Persegui o carro, e ele poderia me ver. Poderia, e mesmo assim não pararia. Um vulto branco bem definido atrás dele, atrás do carro retardado pelos atritos do solo desigual. “Atole, por favor, atole!”. Apenas não queria dar-me a imerecida atenção. Como culpá-lo?
Minha roupa ficava pesada, meus pés escorregavam mais e mais, a lama se apertava entre os dedos enquanto eu corria, a cada passo eu afundava um pouco mais e já estava a uns sessenta metros de casa quando tombei.
Até minha alma já estava molhada.
Bati meu rosto e a lateral esquerda de meu corpo no barro, e encheram-se de cobertura cor-de-chocolate, o cheiro da terra era inebriante; um rasgo me fez gemer ao senti-lo no pé direito. A chuva se misturou com meu sangue e vi o conjunto banhar a responsável. Pontiaguda. Cruel.
Dobrei-me para cima, e tudo parecia estar em câmera lenta. Minhas pernas estavam em um estranho ângulo. O rasgo era visível.
E o sangue parecia doce quando o toquei.
A dor era irrelevante. As trevas escorriam ao meu redor, minha lívida pele e a roupa contrastavam com todo o ambiente. Então, havia uma mancha, uma faixa no peito do meu pé tombado, nascendo do primeiro metatarsiano, na face externa.
Recolhi a afiada pedra, brinquei com ela entre as mãos como se fosse uma amiga, não meu algoz.
Mais uma vez, ingrata, feriu-me. Larguei-a num ímpeto. A palma, agora, era também carne branca manchada, sangrenta. Hemorragia menos intensa, contudo mais torturante. Talvez por ter sido eu mesma a causadora direta.
Lacrimejei, rindo.
Levei até os lábios meu líquido, minha vida.
O gosto férreo me distraiu por um período indefinido, e provavelmente tudo aquilo foi décimos de segundo, apesar de parecerem dias de autoconhecimento louco, sedento e cândido. Uma eternidade breve, um tempo complexo como uma divindade, amoroso ao acariciar meu rosto. Que tempo é esse?
Chorei e ri de frio e suplício, de asco e medo, de entendimento e clareza, de dúvida e cansaço.
Minha mente estava mais organizada quando o motor estava próximo de novo, e o carro vermelho dava a ré. Que se danem as contradições. Elas existem e pronto.
Ele disse alguma coisa. Ralhou. Não sei. “É você, não é?”.
Braços cheios de calor me envolveram.
Ele retornara pela minha queda, meu rasgo, meu sangue, meu líquido. Minha vida.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Tchau.

Não sei. Parei. Acho que fiquei com medo da inspiração. Talvez eu esteja esperando por outro sonho estranho, talvez no feriado surja algo. Eu vou esperar serenamente. Lá, lá, lá.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Medo.

Há coisas engraçadas acontecendo comigo o tempo todo, agora.
Estranho. Simbolicamente, a chuva é relacionada à fertilidade, o branco à virgindade e a água às emoções, à origens, à vida. Parece uma afirmação descontextualizada, mas não é. Não quero explicar o que houve.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Óbvio.

"Você sabe que eu também"
Eu só não acreditava que seria possível. Afinal, eu sou quase insuportável.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Vixe.

Eu odeio quando esses momentos chegam. Meu mais caro amigo me afundou num deles. Agora estou muito pensativa, e nem sei no que estou pensando exatamente. É estranhíssimo. Sei que tem a ver com o passado e o presente.

Vivem dizendo que devemos viver o presente, que o passado não importa. Mas o passado... o passado é bacana, ele nos constrói. Ele não reconhece seu lugar, está sempre presente (e eu aqui citando Mário Quintana na cara dura). Eu sou a porcaria do meu passado. Só que eu não olho pro que eu era há dois anos me sentindo idiota. Eu era idiota há quatro anos, mas há três eu venho agindo da mesma maneira, meio louca, meio chorona, com os mesmos medos. Dizem que eu mudei, mas quem diz isso são pessoas que não eram tão próximas de mim há dois anos.

E no fim das contas, eu ainda tenho muitas coisas que eu tinha há três anos. É uma delícia sempre que aparece uma prova disso. E tenho coisas novas, agora... nem dos meus brinquedos eu me separei. Fiquei com vontade de tirá-los das caixas, hoje. É o que vou fazer. Só olhá-los, sabendo que fazem parte de mim. Que gracinha, isso. Viram Toy Story 3?

Tudo mudou realmente há um ano. Até aquele momento eu achava que eu estava substituindo algo, mas daí eu percebi que eu só estava somando o novo com o velho. Ganhei uma consciência da minha própria sorte. Curiosamente logo depois ocorreram coisas quase absurdas, experiências estranhas. Agora meu humor é inconstante.

Sei lá. Só sei que... eu amo. Não vou colocar objeto direto nisso aí. Há muitas opções.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A Galinha Azul

Eu fiz cada descoberta, recentemente... eu não sabia que o símbolo do Carrefour era um C. E é difícil enxergá-lo. Juro. Descobri também que meu skype é mágico. A internet e o msn não entravam. Skype não só entrava, ele deixava eu me comunicar com pessoas online.
Estava DE FATO funcionando.
Sei lá, deu vontade de escrever aqui. E não tenho muito o que escrever, no fim das contas. Falei qualquer coisa. Alguns entenderão, agora, o título.

domingo, 13 de junho de 2010

Orra.

Eu sou um tanto patética.
Devo ter engordado pra dedéu nesse fim de semana (e eu não me importo), não comi sequer uma coisa que prestasse. Porque eu sou uma louca insegura e chata. Não sei me controlar. Mas talvez não seja culpa minha. Acho que o resto do mundo é que é estranho. Eu acho que o outro acha uma coisa, mas na verdade o outro acha que eu acho outra coisa dele mesmo e… que?
Eu não estou falando de comida.
Ah, veja bem, já tentei me explicar algumas vezes. Os últimos três meses, perdão, eu quis dizer ANOS, têm sido muito cruéis comigo. Perdi algumas pessoas, e ganhei distâncias indesejáveis de outras. Tive de assistir situações conflitantes, de tentar resolvê-las, e apesar de conseguir, vi-me totalmente solitária. Eu nunca fui protagonista de alguma situação conflitante. Percebi que eu era nada, ainda. Era bom, até. Só noto isso agora.

Agora eu inventei uma situação conflitante. Odeio dar uma de psicóloga, mas acho que é inevitável. Não existe alguém que me compreenda melhor do que eu mesma. E por enquanto tenho sobriedade suficiente para me analisar de maneira racional. Eu sempre tive medo de desagradar as pessoas, de fazê-las infelizes, só que ninguém teve o mesmo cuidado comigo por muito tempo. Eu criei um conceito pra levar pela vida inteira cedo demais. Por causa disso eu estou tendo dores cedo demais.
Fodi-me. Hehe.
Essa coisa de amor, paixão, amizade, mimimi me enlouquece. Porque eu cresci confiando muito nesses conceitos. São sagrados pra mim, e não de um modo infantil. Eu os vejo como sendo base da existência humana. A relação entre as pessoas é o que cria um sentido pra vida, não importando a religião do indivíduo. É sempre assim. E por causa de uma visão muito complexa, eu fico deslocada de outrem.
Eu não estou deprimida. Estou brava comigo mesma por enxergar tudo isso tão cedo. Não estou brava com alguma outra pessoa. Eu sou muito tola. Pobre de mim. Pobre dos outros. Louquinha e tola. Tolinha, tolinha. LÁ, LÁ, LÁ.
Isso foi uma bosta de texto, mas só fui falando, mesmo, porque estou cansada.
Boa sorte pra vocês.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Faia.

E era terra. E era pedra. E era osso. E era picareta. O som batia em sua alma, afundando-a até o próprio Hades. Os sinais eram colocados descuidadamente na caixa. A insensibilidade dos coveiros, essencial para o ofício, não era o pior – eram os mensageiros, e deveria aceitá-los. Carta vinda de seu sangue, sua carne; do irmão, perdido no barro, protagonista das lembranças incolores que chegavam à sua mente. Mas que loucura, que loucura! Lembranças de algo que não tivera?!
Loucura.
Aceite.
E era terra, e era osso, e era picareta, e era corda, e eram lágrimas. A dor, curiosidade, compreensão e choque a rodeavam, parecendo cantar para Ela. Os pinheiros que circundavam o campo se inclinaram coreograficamente com o vento. Nos momentos intensos as coisas mais comuns viram símbolos. A água corrente, o canto de pássaros, mesmo o céu limpo!


Respirando fundo, largou o braço da Mãe, e se afastou pelo gramado, se dirigindo a uma atraente sombra. A picareta voltaria ao trabalho, procurando pelo terceiro patamar, o mais profundo. Sabia que, aos baques, seria submergida a ponto de não conseguir mais voltar à superfície.


Era uma grande árvore que abrigava aquele banquinho. Na hora não se importou com a espécie. Talvez uma conífera. Ao imaginar-se ali, por outro lado, visualizou uma faia no outono; como se estivesse isolada num sonho, com todas as suas idealizações.


A latinha em sua mão esquerda tombou no chão. Mal conseguiu se abaixar para apanhá-la, presa em devaneios puros. Queria entender o que estava acontecendo. Era muita coisa acontecendo. Queria entender muita coisa. Quase tremia.
O Pai chegou a passos vagarosos. Sereno. Juntou-se a Ela silenciosamente, como se não quisesse interrompê-la. Permaneceram na mudez até a menina conseguir limpar a garganta e lançar a dúvida, em voz baixa:


- Está doendo?
O homem hesitou. Olhou para o Filho, olhou para as árvores, para o gramado, para as flores, e, finalmente, para Ela:
- Sabe que não? – ele não expressava estar surpreso consigo mesmo: devia ter a justificativa na ponta da língua. E foi o que demonstrou em seguida. – Acho que é porque tenho vocês.


A compreensão veio, cegou-a, ensurdeceu-a e calou-a. O cansaço e calor a corroíam; tudo o que desejava era pôr-se em posição fetal e chorar até que pudesse se banhar inteiramente com o pranto – sobre o gramado, ao vento, ao sol, no meio dos mortos. Ah, os mortos!
Recompôs-se, decompôs-se, recompôs-se e decompôs-se mais uma vez. O tempo passou como se brincasse de se esconder, e no momento seguinte, não era mais a exumação. Inumação soluçante e dourada. O sol os honrava com tanto afeto!


Eis a pele, os olhos, os engasgos. Os abraços! Os lamentos. As comemorações. Um brinde ao Lorde! Descanse, Lorde, descanse! Por favor.
Ela não teve coragem de mirar o Lorde. Não agüentava pensar que seria a última vez. Vira-o sobre seu leito, quase sorrindo e respirando calmamente pela primeira vez em meses; era o bastante. Era assim que o queria em sua memória mais fresca. Não com os algodões, crisântemos e gravata. Menos ainda com as sondas e faixas…


Dust to dust…


As flores perfumadas no vaso em seus braços a chamavam, enquanto o Pastor dava seu espetáculo. “São lindas. Ele vai gostar”, a Tia lhe dissera. Ele vai gostar. Mergulhou o rosto nas pétalas, inspirando. Pegou-se sussurrando palavras diversas, cantando e derrubando as lágrimas sobre elas; usando-as como mensageiras, já que os coveiros estavam ocupados, atrapalhando o Pastor com seus resmungos. O Irmão quase pulava em seus pescoços, pedindo para que se silenciassem e respeitassem.


E esse é meu amor. Mande-lhes, por favor.
Um novo símbolo chegou pelo ar. O Pássaro sobrevoou as cabeças dos tristes, belo como era, e pousou a alguns metros, alaranjado pelo poente.
Por favor?


E era pedra. E era terra. E era.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Páscoa.


Tenho quase certeza de que eram sacerdotisas, ou até mesmo deusas. Uma delas estava estirada sobre a terra, dormindo, provavelmente morta. Não me recordo de suas formas e cores. Só sei que era bela e calma. Mais próxima de mim, na superfície do lago ao meu lado, numa enorme mancha rubra, outra delas dormia. O tecido da roupa branca flutuava, se desprendendo de sua pele, como se fosse sua alma saindo da carne. E acho que havia flores em sua cabeça, coroando seus cabelos dourados.
Depois de uma passagem imprecisa de tempo, em que me pareceu virem brumas sobre o lago e todo o vale, uma nova donzela surgiu. Estava morrendo, tentando chegar à margem, nadando, nua, pálida. Com muito esforço, se pôs de quatro, os joelhos se abrindo em feridas, e o sangue saía de dentro de seu ventre incessantemente, por entre suas coxas, gotejando, sujando a grama. Daí percebi que estava parindo, ou abortando.
Um jovem se aproximou, mas não a ajudou, sequer a tocou. Ficou a fitá-la com espanto, incompreensão. Ela chorou; não era possível ver seu rosto, que se cobria com uma cortina lisa e negra de cabelos, só se ouvia um lamento alto.
- É teu filho que trago à luz, meu querido.
Acho que não pronunciou de fato essas palavras, mas sei que era a verdade, e que aquele não apenas era o pai da criança. Era irmão da moça. Oras, o que diriam os padres se soubessem?
Por alguma razão não a queriam viva, queriam que também boiasse imóvel, ela e seu filho, e seu irmão amante… quem poderia querer mal a quem não fazia o mal? E como pode funcionar o mal, aliás?
Acordei sem me dar conta da estranheza do sonho. Minha noção foi se clareando pouco a pouco. Finalmente o compreendi melhor quando visitei o velho lago. Ele parece tão morto, simplesmente. Mas a vida nele borbulha incrivelmente, escondida dos olhos desatentos, sob as camadas de lama… caramba.
Depois de margear o velho lago, indo em direção à pequena ponte que me levaria ao morro de araucárias, tive um leve tremor. Era como voltar ao sonho. Pois era o mesmo cenário, apesar de parecer mais antigo, agora. Talvez tudo aquilo tenha acontecido mesmo, décadas atrás, e por isso o lago se fechou tanto. Por luto. Provavelmente os irmãos morreram, como as outras duas mulheres. Pergunto-me se a criança chegou a nascer.
Mal cheguei ao morro, e começou a chover forte. Era como se não quisessem que eu ali pisasse. Senti-me expulsa. Parece que minha consciência agora considerava aquele lugar um solo sagrado. Lá só devo ir descalça, ou até mesmo inteiramente desnuda…
Percebendo que era páscoa, pondero que a menina loira e coroada de flores podia ser Eostre, a deusa que verdadeiramente originou as tradições dos ovos e dos coelhos… porque essas tradições cristãs são apenas adaptações das pagãs… realmente aprecio essa teoria.
Mas que loucura. Essas coisas oníricas quase nunca têm significado quando queremos que tenham. Os irmãos eram Morgaine e Arthur, a moça loira devia ser apenas Gwenhwyfar, e tudo não passou de uma imagem naturalmente criada pelas minhas leituras viciadas de As Brumas de Avalon.
Todavia, não foi minha consciência que chamou aquela chuva. E se foi, por que então eu não acreditaria na possibilidade de eu ter sido abençoada com uma Visão verdadeira, quando a natureza se identifica com meu estado de espírito? HOHOHO. Insana devo estar por pensar assim. Insana eu sou. E se não sou, hei de ser… ontem jurei ter sentido a morte chegando, todos aqueles corvos… e o medo e percepção do tempo que passa… eu gosto daqui. Gosto, sim. Mas preciso me retirar… e pensar nesse sonho quando eu estiver num lugar mais sóbrio. Sim, esse lugar é inconstante, não consigo raciocinar tão bem, com esses ventos inesperados, e essas chuvas com sol. Há muito movimento, há muita experiência aqui. Confundo-me.
Vou me retirar.




(Texto originalmente escrito na páscoa. Uma verdadeira loucura).

terça-feira, 11 de maio de 2010

Overture.

E é isso. Talvez eu apareça de ano em ano.