E era terra. E era pedra. E era osso. E era picareta. O som batia em sua alma, afundando-a até o próprio Hades. Os sinais eram colocados descuidadamente na caixa. A insensibilidade dos coveiros, essencial para o ofício, não era o pior – eram os mensageiros, e deveria aceitá-los. Carta vinda de seu sangue, sua carne; do irmão, perdido no barro, protagonista das lembranças incolores que chegavam à sua mente. Mas que loucura, que loucura! Lembranças de algo que não tivera?!Loucura. Aceite.
E era terra, e era osso, e era picareta, e era corda, e eram lágrimas. A dor, curiosidade, compreensão e choque a rodeavam, parecendo cantar para Ela. Os pinheiros que circundavam o campo se inclinaram coreograficamente com o vento. Nos momentos intensos as coisas mais comuns viram símbolos. A água corrente, o canto de pássaros, mesmo o céu limpo!
Respirando fundo, largou o braço da Mãe, e se afastou pelo gramado, se dirigindo a uma atraente sombra. A picareta voltaria ao trabalho, procurando pelo terceiro patamar, o mais profundo. Sabia que, aos baques, seria submergida a ponto de não conseguir mais voltar à superfície.
Era uma grande árvore que abrigava aquele banquinho. Na hora não se importou com a espécie. Talvez uma conífera. Ao imaginar-se ali, por outro lado, visualizou uma faia no outono; como se estivesse isolada num sonho, com todas as suas idealizações.
A latinha em sua mão esquerda tombou no chão. Mal conseguiu se abaixar para apanhá-la, presa em devaneios puros. Queria entender o que estava acontecendo. Era muita coisa acontecendo. Queria entender muita coisa. Quase tremia.
O Pai chegou a passos vagarosos. Sereno. Juntou-se a Ela silenciosamente, como se não quisesse interrompê-la. Permaneceram na mudez até a menina conseguir limpar a garganta e lançar a dúvida, em voz baixa:
O Pai chegou a passos vagarosos. Sereno. Juntou-se a Ela silenciosamente, como se não quisesse interrompê-la. Permaneceram na mudez até a menina conseguir limpar a garganta e lançar a dúvida, em voz baixa:
- Está doendo?
O homem hesitou. Olhou para o Filho, olhou para as árvores, para o gramado, para as flores, e, finalmente, para Ela:
- Sabe que não? – ele não expressava estar surpreso consigo mesmo: devia ter a justificativa na ponta da língua. E foi o que demonstrou em seguida. – Acho que é porque tenho vocês.
O homem hesitou. Olhou para o Filho, olhou para as árvores, para o gramado, para as flores, e, finalmente, para Ela:
- Sabe que não? – ele não expressava estar surpreso consigo mesmo: devia ter a justificativa na ponta da língua. E foi o que demonstrou em seguida. – Acho que é porque tenho vocês.
A compreensão veio, cegou-a, ensurdeceu-a e calou-a. O cansaço e calor a corroíam; tudo o que desejava era pôr-se em posição fetal e chorar até que pudesse se banhar inteiramente com o pranto – sobre o gramado, ao vento, ao sol, no meio dos mortos. Ah, os mortos!
Recompôs-se, decompôs-se, recompôs-se e decompôs-se mais uma vez. O tempo passou como se brincasse de se esconder, e no momento seguinte, não era mais a exumação. Inumação soluçante e dourada. O sol os honrava com tanto afeto!
Recompôs-se, decompôs-se, recompôs-se e decompôs-se mais uma vez. O tempo passou como se brincasse de se esconder, e no momento seguinte, não era mais a exumação. Inumação soluçante e dourada. O sol os honrava com tanto afeto!
Eis a pele, os olhos, os engasgos. Os abraços! Os lamentos. As comemorações. Um brinde ao Lorde! Descanse, Lorde, descanse! Por favor.
Ela não teve coragem de mirar o Lorde. Não agüentava pensar que seria a última vez. Vira-o sobre seu leito, quase sorrindo e respirando calmamente pela primeira vez em meses; era o bastante. Era assim que o queria em sua memória mais fresca. Não com os algodões, crisântemos e gravata. Menos ainda com as sondas e faixas…
Ela não teve coragem de mirar o Lorde. Não agüentava pensar que seria a última vez. Vira-o sobre seu leito, quase sorrindo e respirando calmamente pela primeira vez em meses; era o bastante. Era assim que o queria em sua memória mais fresca. Não com os algodões, crisântemos e gravata. Menos ainda com as sondas e faixas…
Dust to dust…
As flores perfumadas no vaso em seus braços a chamavam, enquanto o Pastor dava seu espetáculo. “São lindas. Ele vai gostar”, a Tia lhe dissera. Ele vai gostar. Mergulhou o rosto nas pétalas, inspirando. Pegou-se sussurrando palavras diversas, cantando e derrubando as lágrimas sobre elas; usando-as como mensageiras, já que os coveiros estavam ocupados, atrapalhando o Pastor com seus resmungos. O Irmão quase pulava em seus pescoços, pedindo para que se silenciassem e respeitassem.
E esse é meu amor. Mande-lhes, por favor.
Um novo símbolo chegou pelo ar. O Pássaro sobrevoou as cabeças dos tristes, belo como era, e pousou a alguns metros, alaranjado pelo poente.
Por favor?
Um novo símbolo chegou pelo ar. O Pássaro sobrevoou as cabeças dos tristes, belo como era, e pousou a alguns metros, alaranjado pelo poente.
Por favor?
E era pedra. E era terra. E era.

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