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Tenho quase certeza de que eram sacerdotisas, ou até mesmo deusas. Uma delas estava estirada sobre a terra, dormindo, provavelmente morta. Não me recordo de suas formas e cores. Só sei que era bela e calma. Mais próxima de mim, na superfície do lago ao meu lado, numa enorme mancha rubra, outra delas dormia. O tecido da roupa branca flutuava, se desprendendo de sua pele, como se fosse sua alma saindo da carne. E acho que havia flores em sua cabeça, coroando seus cabelos dourados.
Depois de uma passagem imprecisa de tempo, em que me pareceu virem brumas sobre o lago e todo o vale, uma nova donzela surgiu. Estava morrendo, tentando chegar à margem, nadando, nua, pálida. Com muito esforço, se pôs de quatro, os joelhos se abrindo em feridas, e o sangue saía de dentro de seu ventre incessantemente, por entre suas coxas, gotejando, sujando a grama. Daí percebi que estava parindo, ou abortando.
Um jovem se aproximou, mas não a ajudou, sequer a tocou. Ficou a fitá-la com espanto, incompreensão. Ela chorou; não era possível ver seu rosto, que se cobria com uma cortina lisa e negra de cabelos, só se ouvia um lamento alto.
- É teu filho que trago à luz, meu querido.
Acho que não pronunciou de fato essas palavras, mas sei que era a verdade, e que aquele não apenas era o pai da criança. Era irmão da moça. Oras, o que diriam os padres se soubessem?
Por alguma razão não a queriam viva, queriam que também boiasse imóvel, ela e seu filho, e seu irmão amante… quem poderia querer mal a quem não fazia o mal? E como pode funcionar o mal, aliás?
Acordei sem me dar conta da estranheza do sonho. Minha noção foi se clareando pouco a pouco. Finalmente o compreendi melhor quando visitei o velho lago. Ele parece tão morto, simplesmente. Mas a vida nele borbulha incrivelmente, escondida dos olhos desatentos, sob as camadas de lama… caramba.
Depois de margear o velho lago, indo em direção à pequena ponte que me levaria ao morro de araucárias, tive um leve tremor. Era como voltar ao sonho. Pois era o mesmo cenário, apesar de parecer mais antigo, agora. Talvez tudo aquilo tenha acontecido mesmo, décadas atrás, e por isso o lago se fechou tanto. Por luto. Provavelmente os irmãos morreram, como as outras duas mulheres. Pergunto-me se a criança chegou a nascer.
Mal cheguei ao morro, e começou a chover forte. Era como se não quisessem que eu ali pisasse. Senti-me expulsa. Parece que minha consciência agora considerava aquele lugar um solo sagrado. Lá só devo ir descalça, ou até mesmo inteiramente desnuda…
Percebendo que era páscoa, pondero que a menina loira e coroada de flores podia ser Eostre, a deusa que verdadeiramente originou as tradições dos ovos e dos coelhos… porque essas tradições cristãs são apenas adaptações das pagãs… realmente aprecio essa teoria.
Mas que loucura. Essas coisas oníricas quase nunca têm significado quando queremos que tenham. Os irmãos eram Morgaine e Arthur, a moça loira devia ser apenas Gwenhwyfar, e tudo não passou de uma imagem naturalmente criada pelas minhas leituras viciadas de As Brumas de Avalon.
Todavia, não foi minha consciência que chamou aquela chuva. E se foi, por que então eu não acreditaria na possibilidade de eu ter sido abençoada com uma Visão verdadeira, quando a natureza se identifica com meu estado de espírito? HOHOHO. Insana devo estar por pensar assim. Insana eu sou. E se não sou, hei de ser… ontem jurei ter sentido a morte chegando, todos aqueles corvos… e o medo e percepção do tempo que passa… eu gosto daqui. Gosto, sim. Mas preciso me retirar… e pensar nesse sonho quando eu estiver num lugar mais sóbrio. Sim, esse lugar é inconstante, não consigo raciocinar tão bem, com esses ventos inesperados, e essas chuvas com sol. Há muito movimento, há muita experiência aqui. Confundo-me.
Vou me retirar.
Depois de uma passagem imprecisa de tempo, em que me pareceu virem brumas sobre o lago e todo o vale, uma nova donzela surgiu. Estava morrendo, tentando chegar à margem, nadando, nua, pálida. Com muito esforço, se pôs de quatro, os joelhos se abrindo em feridas, e o sangue saía de dentro de seu ventre incessantemente, por entre suas coxas, gotejando, sujando a grama. Daí percebi que estava parindo, ou abortando.
Um jovem se aproximou, mas não a ajudou, sequer a tocou. Ficou a fitá-la com espanto, incompreensão. Ela chorou; não era possível ver seu rosto, que se cobria com uma cortina lisa e negra de cabelos, só se ouvia um lamento alto.
- É teu filho que trago à luz, meu querido.
Acho que não pronunciou de fato essas palavras, mas sei que era a verdade, e que aquele não apenas era o pai da criança. Era irmão da moça. Oras, o que diriam os padres se soubessem?
Por alguma razão não a queriam viva, queriam que também boiasse imóvel, ela e seu filho, e seu irmão amante… quem poderia querer mal a quem não fazia o mal? E como pode funcionar o mal, aliás?
Acordei sem me dar conta da estranheza do sonho. Minha noção foi se clareando pouco a pouco. Finalmente o compreendi melhor quando visitei o velho lago. Ele parece tão morto, simplesmente. Mas a vida nele borbulha incrivelmente, escondida dos olhos desatentos, sob as camadas de lama… caramba.
Depois de margear o velho lago, indo em direção à pequena ponte que me levaria ao morro de araucárias, tive um leve tremor. Era como voltar ao sonho. Pois era o mesmo cenário, apesar de parecer mais antigo, agora. Talvez tudo aquilo tenha acontecido mesmo, décadas atrás, e por isso o lago se fechou tanto. Por luto. Provavelmente os irmãos morreram, como as outras duas mulheres. Pergunto-me se a criança chegou a nascer.
Mal cheguei ao morro, e começou a chover forte. Era como se não quisessem que eu ali pisasse. Senti-me expulsa. Parece que minha consciência agora considerava aquele lugar um solo sagrado. Lá só devo ir descalça, ou até mesmo inteiramente desnuda…
Percebendo que era páscoa, pondero que a menina loira e coroada de flores podia ser Eostre, a deusa que verdadeiramente originou as tradições dos ovos e dos coelhos… porque essas tradições cristãs são apenas adaptações das pagãs… realmente aprecio essa teoria.
Mas que loucura. Essas coisas oníricas quase nunca têm significado quando queremos que tenham. Os irmãos eram Morgaine e Arthur, a moça loira devia ser apenas Gwenhwyfar, e tudo não passou de uma imagem naturalmente criada pelas minhas leituras viciadas de As Brumas de Avalon.
Todavia, não foi minha consciência que chamou aquela chuva. E se foi, por que então eu não acreditaria na possibilidade de eu ter sido abençoada com uma Visão verdadeira, quando a natureza se identifica com meu estado de espírito? HOHOHO. Insana devo estar por pensar assim. Insana eu sou. E se não sou, hei de ser… ontem jurei ter sentido a morte chegando, todos aqueles corvos… e o medo e percepção do tempo que passa… eu gosto daqui. Gosto, sim. Mas preciso me retirar… e pensar nesse sonho quando eu estiver num lugar mais sóbrio. Sim, esse lugar é inconstante, não consigo raciocinar tão bem, com esses ventos inesperados, e essas chuvas com sol. Há muito movimento, há muita experiência aqui. Confundo-me.
Vou me retirar.
(Texto originalmente escrito na páscoa. Uma verdadeira loucura).

Oiieee Isão!
ResponderExcluirFantástico o seu sonho.
O blog está tão bonito.
Apenas uma coisinha: A letra está um pouco pequena.
Beijos
eu lembro.
ResponderExcluir